quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Sentimento do mundo / Drummond...Que delícia!


Autor: Carlos Drummond de Andrade

Tempo Literário : Modernismo / Geração de 30 – Poesia Existencial

Contexto Histórico: O Estado Novo /A segunda Guerra Mundial / A militância esquerdista /Tempo de consciência político-social.

A Poesia de Drummond

A poesia de Carlos Drummond de Andrade pode ser abordada a partir da dialética “eu x mundo”, desdobrando-se em três atitudes:

Eu maior que o mundo – marcada pela poesia irônica. O poeta vê os conflitos de uma posição distante e sem envolvimento: daí o humor, os poemas-piada e a ironia. O poeta fotografa a província, a família. É sarcástico, de uma irreverência incontida, mas de um sentimento contido, o que vem a produzir um texto objetivo, seco, versos curtos e descarnados, sem transbordamento emocional. É o que ocorre em Alguma Poesia e Brejo das Almas.
 
 Eu menor que o mundo – marcada pela poesia social, tomando como temas a política, a guerra e o sofrimento do homem. Desabrocha o sentimento do mundo, marcado pela solidão, pela impotência do homem, diante de um mundo frio e mecânico, que o reduz a objeto. É o que ocorre em Sentimento do Mundo, José e especialmente em A Rosa do Povo. 
Os poemas Mãos Dadas, Os Ombros Suportam o Mundo e Confidência do Itabirano também estão incluídos nessa fase.

 Eu igual ao mundo – abrange a poesia metafísica, de Claro Enigma onde a escavação do real, mediante um processo de interrogações e negações, conduz ao vazio que espreita o homem e ao desencanto, e a “poesia objetual”, de Lição de Coisas, onde a palavra se faz coisa, objeto,, e é pesquisada, trabalhada, desintegrada e refundida no espaço da página.


A Obra:
Sentimento do Mundo (1940)
Foi publicado em plena Segunda Guerra Mundial, por isso muitos poemas funcionam como denúncia da opressão do período, com o mundo cheio de ditadores, inclusive o Brasil, com Getúlio Vargas. Nada pior para um artista que a falta de liberdade, pois ela tolhe a sua criatividade. Stalin - na União Soviética ,Hitler - na Alemanha
Franco - na Espanha ,Salazar - em Portugal Mussolini - na Itália, Peron - na Argentina

Clímax da obra
O primeiro poema intitulado Sentimento do Mundo  resume bem toda a ideia e a visão que o autor expõe ao longo de toda a obra. Sentimento do Mundo faz uma crítica aos tempos de guerras (evidenciados com os movimentos da Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial, Estado Novo de Getúlio Vargas, Fascismo e Nazismo) e sobre o poder de destruição do homem.

Tenho apenas duas mãos 
e o sentimento do mundo 
mas estou cheio de escravos 
minhas lembranças escorrem 
e o corpo transige 
na confluência do amor.
 ("Sentimento do mundo)

 Congresso Internacional do Medo revela isso com toda a força.
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


 Com José e Mãos Dadas forma uma tríade de poemas essencialmente políticos, reveladores do engajamento de Drummond na luta pela liberdade.
A consciência do momento histórico produz a indagação sobre o sentido da vida para a qual o poeta só encontra uma resposta pessimista: "sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas"
O poema usa uma expressão bem corriqueira "morreremos de medo" num contexto bem político, com sentido de covardia coletiva, pois não há uma predisposição do povo para enfrentar os ditadores. Pelo contrário, eles tinham o apoio popular.


Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro. 
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. 
Entre eles, considero a enorme realidade. 
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. 

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, 
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. 
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes, 
a vida presente.


Relação de poemas (28)


Sentimento de Mundo Confidência do Itabirano 
Poema da Necessidade
Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte
Tristeza do Império
Operário no Mar (prosa)
Menino Chorando na Noite
Morro da Babilônia
Congresso Internacional do Medo
Os Mortos de Sobrecasaca
Privilégio do Mar
Inocentes do Leblon
Canção do Berço
Indecisão de Méier
Bolero de Ravel
La Possession du Monde
Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro
Os Ombros Suportam o Mundo
Mãos Dadas

Dentaduras Duplas
Revelação do Subúrbio
A Noite Dissolve os Homens
Madrigal Lúgubre
Lembrança do Mundo Antigo
Elegia 1938
Mundo Grande
Noturno à Janela do Apartamento

OBS : embora todos os poemas de Drummond sejam significativamente especiais, os assinalados em negrito correspondem aos mais divulgados e solicitados em provas.

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