quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Redação: A IDADE DO DINHEIRO.



"Ouro, precioso ouro, amarelo e brilhante! Um pouco dele fará dos pretos, brancos; dos tolos,   sábios; Do mal, bem; do vil ,nobre;do velho, jovem; do covarde, valente..." 

Shakespeare - Timão de Atenas



Vivemos numa sociedade crescente materialista e consumista, onde o alto bem-estar atingido em parte considerável do globo tem sido atribuído ao sucesso da sociedade de mercado. Regida pelo capitalismo turbinado ,este percorre o planeta como um cometa celestial, anunciando, aqui e ali, simultaneamente, prosperidade e mau tempo, fruto da sua própria e natural inconstância. Um cometa que, acima de tudo, anuncia o estabelecimento definitivo da Idade do Dinheiro.

A mercantilização de tudo
-A importância de um filme é medida antes de tudo o pelo custo da sua produção e pelo volume de sonante gerado nas bilheterias.
- O sucesso de um indivíduo com talento artístico ou no campo dos esportes é balizado pelos patrocínios publicitários que ele recebe e pelos contratos comerciais que assina.
- Os times esportivos mais competitivos dos dias de hoje ostentam em sua camisetas seus financiadores e mesmo gente comum se presta voluntariamente para servir de anuncio vivo, carregando marcas ou slogans de conhecidas e famosas empresas impressos em camisas ou blusões. Tornam-se, gratuitamente, cartazes e pôsteres ambulantes.
-As artes plásticas, atoladas num hermetismo cada vez mais abstrato e incompreensível, subsistem hoje apenas como linha auxiliar da propaganda e da arte de vender , escondida atrás da palavra merchandising .
-Enquanto isso os clássicos da pintura e da escultura têm sua dimensão estabelecida pelo alto preço com que são arrematados nos leilões: um Rembrandt , um Van Gogh ou um Rodin são respeitados porque valem milhões.
-Na televisão e no rádio, a hora do especulador, com intermináveis cotações das bolsas de valores, com seus sobes e baixas, tem lugar garantido em todos os noticiosos.
Definitivamente o mundo todo virou um imenso bazar. Absolutamente tudo ,hoje, é mercadoria, o dinheiro é a única medida das coisas humanas e das inanimadas.

O deus é Mammon                                                                                                                                                                                                                                          Se algum dia, alguém der prosseguimento à conhecida classificação que divide a evolução da humanidade em Idade do Bronze, Idade do Ferro... terá que convir que definitivamente nós vivemos na Idade do Dinheiro, tendo Mammon, o deus pagão da riqueza, como sua divindade inconfessa. Cabe aos intelectuais engajados reconhecerem o fracasso, seu e de todos aqueles que os antecederam, em verberarem contra o consumo e o predomínio do dinheiro.
Durante séculos, eles, como se fossem sacerdotes , mobilizaram-se, em tempos diversos, para denunciar os perigos do mundo mercantilizado, onde tudo correria ao som do pecaminoso tilintar das moedas. Entre os pensadores clássicos, Aristóteles, por exemplo, na sua classificação das formas de viver exposta “Ética de Nicômaco’, chegou a considerar o negócio como uma atividade indigna do ser humano. Quem se dedicava a ele "era um homem que estava fora da natureza". Posição esta que não foi diferente daquelas dos grandes nomes  da teologia cristã, como São João Crisóstomo, Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino, que viam na usura, "a ganância sem causa", praticada pelos mercadores, uma atividade vil, tanto que é que Jesus expulsou do templo tal tipo de gente. Em uma famosa passagem do Evangelho, Jesus chegou a opor o dinheiro a Deus, dizendo: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou vai dedicar-se a um e desprezar o outro - Não podeis servir a Deus e a Mamon!"
Entre os cristãos, a atividade mercantil somente era justificada se fosse acompanhada por um ato de caridade. O comércio seja ele qual fosse para o cristianismo sempre "encerrava certa torpeza".

Sem Palácios de Cristal
Quem, ao longo da História, não imprecou contra o poder do dinheiro, quem não lançou em algum momento da vida pragas e maldições contra o pérfido metal? Os anarquistas do século passado, os militantes socialistas e os pensadores marxistas foram ,talvez, a última e inútil insurgência contra o total predomínio do mundo argentário em oposição à sociedade de mercado.
O comportamento da humanidade decepcionou os reformadores sociais e os teólogos, em vista do que terminou por se impor. Ao contrário dos idealistas que planejavam para as massas Palácios de Cristal, mundos perfeitos onde a miséria desapareceria e a igualdade total finalmente seria alcançada,  universalmente, as multidões mostraram-se apenas interessadas no seu bem-estar material mais comezinho, despido da grandiloquência do messianismo político e dos ideais superiores da igualdade e da fraternidade.
E, para alcançar um bom padrão de vida, entenderam que a melhor forma de melhorar a sua existência era exatamente pela promoção das relações mercantis, em transformar tudo num imenso armazém, em deixar-se arrastar pela simples lógica do dinheiro e pela liberdade que sua posse traz.
Pelo que se pode observar até agora - e o engajamento dos chineses comunistas está aí para provar - a adesão ao mundo do consumo não tem provocado nenhuma infelicidade coletiva como muitos pensadores e teólogos imaginavam que  ocorreria. Ao contrário, adentrar no mundo das compras visivelmente provoca a euforia das multidões.
O choque maior para os intelectuais contestadores e para os sacerdotes inconformados de hoje é de que percebem que o crescente mercantilismo não tornou o homem sorumbático, depressivo - ou ainda se sentindo aviltado - como imaginavam que fatalmente iria ocorrer. Facilmente, verifica-se em qualquer lugar que as pessoas se orgulham e se sentem até honradas em se verem consideradas como mercadoria, em venderem, caso sejam famosas, a sua imagem para um anúncio publicitário qualquer. Ficam felicíssimas em serem consideradas alvos desse tipo de atenção e da popularidade daí decorrente. Tudo isso demonstra o enorme equívoco, a imensa alienação -em que as melhores cabeças de todos os tempos incorreram- ao avaliar romanticamente os reais sentimentos da maioria dos seres humanos.

A vitória do homem comum
A visão mercantilista da vida e das coisas nunca atribuiu aos homens valores superiores, transcendentais. Nunca os viu com olhos de fantasia. Sempre os enxergou como realmente são: um amontoado de pobres diabos carentes de tudo, movidos pelas coisas comezinhas, rasteiras e sem sabor que os cerca no dia-a-dia. Ficam imensamente gratos em poder consumir qualquer coisa, substituindo sem grandes culpas a frequência à igreja por um shopping - center ou uma loja de departamentos. Trocam a compra das indulgências pelas suaves prestações mensais.
Nunca os ideólogos do mercado creditaram ao homem comum, ao homem-massa, algum grande destino redentor ou façanha transformadora do mundo. Nem mesmo acalentaram nele a esperança na imortalidade alcançada, possivelmente depois que os compromissos assumidos estivessem quitados. Igualmente nunca o imaginaram capaz de viver numa sociedade harmônica e solidária, porque nela, provavelmente, morreriam de fastio e tédio .

Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come.                                                                              
Greenpeace


PROPOSTA DE REDAÇÃO

Há muito tempo a filosofia do "Tudo tem um preço" tem sido praticada no mundo. Não importa o que seja. Pode ser um bem móvel ou imóvel,  um certificado, uma reportagem na mídia, um minuto do seu tempo e pode até ser você, se assim o permitir. O século XXI tem atestado esse fato com clareza  e  constância. Assim...

O dinheiro é a única medida das coisas humanas e das inanimadas ?

Disserte sobre o tema.Utilize a norma culta, aproximadamente, em 25 linhas.Dê titulo ao seu texto.

gizelda

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Redação prá você: Liberdade : uma prisão sem muros?





PROPOSTA DE REDAÇÃO
                                 

O dicionário define “liberdade” como:
  • a qualidade ou estado de ser livre; e
  • a ausência de necessidade, coerção, ou restrição na escolha ou ação.

Texto 1-                                                                                                                                                                                                       Existe uma situação contraditória na vida humana e se apresenta a todas as pessoas com intensidades distintas, mas com clareza incontestável: a necessidade de ser livre e a dificuldade de sê-lo de maneira, se não absoluta, pelo menos satisfatória. A liberdade absoluta só é possível enquanto pura potência, enquanto é apenas possibilidade. Eu posso fazer qualquer escolha? Sim, sem dúvida. Mas, a partir do momento que escolho um bem, abro mão de outros tantos e limito, assim, minha liberdade ao bem escolhido. Essa limitação é necessária para que a liberdade seja efetiva. Se  quero a liberdade absoluta, terei que renunciar a qualquer tipo de escolha, de realização. Sendo assim, acabarei sem nada.

Texto 2-                                                                                                                                                                                               A primeira grande teoria filosófica da liberdade é exposta por Aristóteles em sua  obra Ética a Nicômaco e, com variantes, permanece através dos séculos, chegando  até o século XX, quando foi retomada por Sartre. Nessa concepção, a liberdade se  opõe ao que é condicionado externamente (necessidade) e ao que acontece sem  escolha deliberada (contingência). Diz Aristóteles que é livre aquele que tem em si mesmo o princípio para agir ou não agir, isto é, aquele que é causa interna de sua ação ou da decisão de não agir. A liberdade é concebida como o poder pleno e incondicional da vontade para determinar a si mesma ou para ser autodeterminada. É pensada, também, como ausência de constrangimentos externos e internos, isto é, como uma capacidade que não encontra obstáculos para se realizar, nem é forçada por coisa alguma para agir. Trata-se da espontaneidade plena do agente, que dá a si mesmo os motivos e os fins de sua ação, sem ser constrangido ou forçado por nada e por ninguém.
Assim, na concepção aristotélica, a liberdade é o princípio para escolher entre alternativas possíveis, realizando-se como decisão e ato voluntário.                                                                                                     

Texto 3-                                                                                                                                                    
Segundo Filósofo Merleau-Ponty:
Escolhemos nosso mundo e nosso mundo nos escolhe… Concretamente tomada, a liberdade é sempre o encontro de nosso interior com o exterior, degradando-se, sem nunca tornar-se nula, à medida que diminui a tolerância dos dados corporais e institucionais de nossa vida. Há um campo de liberdade e uma “liberdade condicionada”, porque tenho possibilidades próximas e distantes…
A escolha de vida que fazemos tem sempre lugar sobre a base de situações dadas e possibilidades abertas. Minha liberdade pode desviar minha vida do sentido espontâneo que teria, mas o faz deslizando sobre este sentido, esposando-o inicialmente para depois afastar-se dele, e não por uma criação absoluta… Sou uma estrutura psicológica e histórica. Recebi uma maneira de existir, um estilo de existência. Todas as minhas ações e meus pensamentos estão em relação com essa estrutura.
No entanto, sou livre, não apesar disto ou aquém dessas motivações, mas por meio delas, são elas que me fazem comunicar com minha vida, com o mundo e com minha liberdade.

Texto 4                                                                                                                                                
  Realmente, só pelo fato de ser consciente das causas que inspiram minhas ações, estas causas já são objetos transcendentes para minha consciência; elas estão fora. Em vão tentaria apreendê-las. Escapo delas pela minha própria existência. Estou condenado a existir para sempre além da minha essência, além das causas e motivos dos meus atos. Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite para minha liberdade pode ser estabelecido, exceto a própria liberdade, ou, se você preferir; que nós não somos livres para deixar de ser livres                                                                          ( Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada)

Proposta :
Para Descartes, age com mais liberdade quem  melhor compreende as alternativas em escolha. Quanto mais claramente uma alternativa apareça como a verdadeira, mais facilmente se escolhe essa alternativa. Entretanto, pela coletânea acima, você pode perceber que o assunto propõe uma discussão mais ampla. Afinal,

Liberdade : uma prisão sem muros?

Redija um TEXTO DISSERTATIVO de aproximadamente 30 linhas. Utilize norma culta.

                                                                          Profª Gizelda

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Relatório? Será?!!!!!





Bem...nunca se sabe. Em se tratando da Unicamp , tudo é possível.Depois do Verbete, por que não solicitar que os alunos façam um relatório? Desejo que isso não ocorra, mas ...aí está o básico.

Conceito de  RELATÓRIO

"É a exposição escrita na qual se descrevem fatos verificados mediante pesquisas ou se historia a execução de serviços ou de experiências. É geralmente acompanhado de documentos demonstrativos, tais como tabelas, gráficos, estatísticas e outros." (UFPR, 1996)

Objetivos
De um modo geral, podemos dizer que os relatórios são escritos com os objetivos:
  • Divulgar  os dados técnicos obtidos e analisados;
  • Registrá-los em caráter permanente.
Como fazer um relatório?
Basicamente,  pode-se considerar dois tipos de relatórios: o profissional e o acadêmico. Ambos possuem regras , e o mesmo objetivo : relatar o desenvolvimento de um trabalho ou de uma pesquisa, informando e quantificando os seus resultados de forma detalhada. Poderíamos ainda citar relatórios de gestão, de inquérito, de atividades, e outros, mas todos são tão específicos que , dificilmente, seriam solicitados fora do seu âmbito particular.

Qualquer que seja o relatório, ele  deve se realizado para justificar  o resultado de uma atividade ou pesquisa. Logo, há necessidade de material de apoio para o seu desenvolvimento, sendo fundamental que, enquanto estiver realizando a ação objeto do relatório, pesquisa, trabalho, estágio, e outros, sejam feitas anotações sobre todos os pontos relevantes que forem acontecendo merecedores de  atenção.
Isso pode complementar de maneira enriquecedora o relatório de um livro, de estágio, de uma pesquisa ou de uma atividade qualquer. Salientar os pontos relevantes, dúvidas, pormenores, principais personagens, curiosidades e outros pontos que detalhem ser a redação do parágrafo final. Obviamente, há que se fazer uma seleção criteriosa e descartar o menos interessante.

O relatório  acadêmico precisa necessariamente ter objetivos bem definidos e deve ser dividido em introdução, desenvolvimento e conclusão. O título deve ser simples e vir seguido da identificação ( turma,nome,  departamento).

Estrutura:
Introdução : deve constar  nela ,de modo sintético, todo o conteúdo do relatório, assim como os objetivos, a abrangência da pesquisa  trabalho  e a metodologia utilizada.

Desenvolvimento: listam-se  os dados, depoimentos e estatísticas que  em textos,  gráficos e tabelas para ampliar o trabalho de maneira a não deixar dúvidas. Trata-se de discussão e análise de dados.
O relatório não pretende argumentar sobre coisa alguma, mas apenas de relatar dados ou informações pesquisadas e selecionadas de modo a justificar um a pesquisa.

Conclusão: deve conter o resultado dos dados apresentados no desenvolvimento .Pode, inclusive, recomendar /sugerir alguma modificação que se fizer pertinente aos dados analisa

Linguagem: formal e/ou técnica quando necessário,  clara, objetiva e concisa. Utiliza-se a ordem direta em língua formal.

Publico-alvo:normalmente, os leitores de relatórios são pessoas de perfis bem definidos, capazes de entenderem o trabalho que está sendo exposto porque faz parte do seu universo profissional.

No mais, capricho, correção, clareza e ...boa sorte!

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Unicamp 2013 ...já chegou!




A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) recebeu 67.403 inscrições para o vestibular 2013 e registrou recorde de número de inscritos. Segundo a assessoria de imprensa da universidade, é o quarto ano consecutivo que a Unicamp registra crescimento do número de candidatos. No ano passado, foram recedidas 61.509 inscrições. 
Medicina é o curso mais concorrido, como acontece desde que a Unicamp desenvolveu vestibular próprio, com 13.998 candidatos - são 127,3 candidatos por vaga. Em seguida, aparece o curso de arquitetura e urbanismo (97,1 c/v), medicina na Famerp (72,0 c/v), engenharia civil (51,9 c/v) e engenharia química - Integral (44,7 c/v). 
No total, são oferecidas 3.444 vagas em 68 cursos da Unicamp e dois cursos da Famerp.

UOL /20/09/2012

Redação:
No vestibular do ano passado, os candidatos deveriam redigir três textos na prova de redação. Nesse ano houve alterações, e os candidatos deverão produzir apenas dois textos de gêneros distintos e de execução obrigatória na prova de redação.

Esse fato melhora as condições de realização da produção de textos?

 No quesito tempo, sim. Sem dúvida, redigir dois textos em vez de três demanda menos tempo.

No quesito nota , não. Mais textos, maiores as chances de nota, obviamente.

Porém, quando você tem 67.403 inscritos e só 3.444 vagas, sendo 127,3 candidatos a uma vaga em Medicina, não há dúvida de que...

você vai precisar de excelência na prova.

Ser bom é muito pouco!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Aprendeu a escrever um artigo de opinião? Não? Então , aprenda!


Se a resposta for "sim", ponto prá você! Se for "não", leia com atenção o texto publicado pela Folha de SP em 16 /07/2012. Perfeito!

Ciúme, infelicidade e crime
LUIZA NAGIB ELUF

Supervalorizar a fidelidade é um erro. Os amores livres, sem mentiras, narrados por Stieg Larsson nos mostram: nossa natureza não é a exclusividade
O ciúme nasce com o ser humano. Irmãos lutam pela atenção dos pais, crianças têm apego possessivo pelos brinquedos. No entanto, além das tendências inatas, padrões culturais centenários insuflam o sentimento de posse, de domínio do outro nas relações afetivas e sexuais.
Ao contrário do que disse Vinícius de Moraes, o ciúme não é o perfume do amor -e pode ser sua desgraça. Impossível estabelecer uma relação gratificante quando as perseguições e as cobranças são a tônica da vida a dois.
A exclusividade entre parceiros não deveria merecer tanta prioridade. A supervalorização da fidelidade é um erro, é a maior causa de infelicidade conjugal. Não que se deva ignorar a importância de um parceiro fiel e dedicado, mas a obsessão pela exclusividade pode tornar a vida um inferno e levar à violência doméstica. Crime passional nada mais é do que homicídio por ciúme.
O que caracteriza a passionalidade é o motivo do crime. O Código Penal qualifica o homicídio, aumentando a pena, quando ele é praticado por motivo torpe. O ódio gerado pelo ciúme e a sede de vingança que atormentam a pessoa que foi trocada por outra configuram a torpeza.
O móvel do crime é uma combinação de egoísmo, de amor próprio ferido, de instinto sexual e, acima de tudo, de uma compreensão deformada da Justiça, pois o homicida acha que está no seu "direito".
A pena prevista é de 12 a 30 anos de reclusão. Quanto mais estreita a mentalidade do agente, maior sua insegurança, sua necessidade de dominar e de se autoafirmar às custas da companheira ou companheiro.
O homicídio entre casais é uma aberração que durante séculos foi avalizada pela sociedade, principalmente quando o autor era homem e a vítima, apontada como traidora, era mulher. Foi assim que morreram Ângela Diniz, Eliane de Grammont, Sandra Gomide e muitas outras.
O caso Matsunaga é uma exceção à regra do crime passional. Na esmagadora maioria das vezes, quem mata é o homem; a mulher é vítima do marido e da sociedade patriarcal.
A tragédia transcende o casal. No geral, há filhos que ficam órfãos, pais e mães que definham no desespero de perdas irreparáveis, futuras gerações que são obrigadas a suportar o estigma do assassinato em família.
Está na hora de corrigir padrões de comportamento que contrariam a natureza humana e por isso não são respeitados.
A natureza não ditou a fidelidade eterna. A exclusividade entre parceiros existe, mas em geral é apenas temporária.
Além disso, o ciúme é um mal a ser extirpado, não a ser incentivado, como se costuma fazer. Não se pode cultivar sentimento de posse e propriedade sobre um ser humano.
Leon Rabinowicz, em 1933, já mostrava perplexidade com o crime passional: "Curioso sentimento o que nos leva a destruir o objeto de nossa paixão! Mas não devemos nos extasiar perante o fato. É preferível deplorá-lo". O instinto de destruição é exatamente o instinto de posse exacerbado. A propriedade completa compreende também o poder de matar.
O ciúme incomoda, fere, humilha quem o sente. Diz Roland Barthes: "Como ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo por isso, porque temo que meu ciúme magoe o outro e porque me deixo dominar por uma banalidade. Sofro por ser excluído, agressivo, louco e comum".
O sueco Stieg Larsson, autor da trilogia Millennium, criou em sua obra personagens envolvidos em tramas intrincadas e fascinantes. Extremamente moderno e arrojado, ele construiu relações amorosas baseadas na liberdade individual, mostrando as variadas possibilidades de ser feliz no amor sem as amarras da exclusividade e da mentira.
Se conseguirmos lidar melhor com nosso egoísmo, o fim do amor será sempre resolvido nas varas da família, não no Tribunal do Júri.

LUIZA NAGIB ELUF, 57, é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo. É autora, entre outros livros, de "A Paixão no Banco dos Réus" (Saraiva), sobre crimes passionais

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.debates@uol.com.br

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Sentimento do mundo / Drummond...Que delícia!




Autor: Carlos Drummond de Andrade

Tempo Literário : Modernismo / Geração de 30 – Poesia Existencial

Contexto Histórico: O Estado Novo /A segunda Guerra Mundial / A militância esquerdista /Tempo de consciência político-social.

A Poesia de Drummond

A poesia de Carlos Drummond de Andrade pode ser abordada a partir da dialética “eu x mundo”, desdobrando-se em três atitudes:

Eu maior que o mundo – marcada pela poesia irônica. O poeta vê os conflitos de uma posição distante e sem envolvimento: daí o humor, os poemas-piada e a ironia. O poeta fotografa a província, a família. É sarcástico, de uma irreverência incontida, mas de um sentimento contido, o que vem a produzir um texto objetivo, seco, versos curtos e descarnados, sem transbordamento emocional. É o que ocorre em Alguma Poesia e Brejo das Almas.
 
 Eu menor que o mundo – marcada pela poesia social, tomando como temas a política, a guerra e o sofrimento do homem. Desabrocha o sentimento do mundo, marcado pela solidão, pela impotência do homem, diante de um mundo frio e mecânico, que o reduz a objeto. É o que ocorre em Sentimento do Mundo, José e especialmente em A Rosa do Povo. 
Os poemas Mãos Dadas, Os Ombros Suportam o Mundo e Confidência do Itabirano também estão incluídos nessa fase.

 Eu igual ao mundo – abrange a poesia metafísica, de Claro Enigma onde a escavação do real, mediante um processo de interrogações e negações, conduz ao vazio que espreita o homem e ao desencanto, e a “poesia objetual”, de Lição de Coisas, onde a palavra se faz coisa, objeto,, e é pesquisada, trabalhada, desintegrada e refundida no espaço da página.


A Obra:
Sentimento do Mundo (1940)
Foi publicado em plena Segunda Guerra Mundial, por isso muitos poemas funcionam como denúncia da opressão do período, com o mundo cheio de ditadores, inclusive o Brasil, com Getúlio Vargas. Nada pior para um artista que a falta de liberdade, pois ela tolhe a sua criatividade. Stalin - na União Soviética ,Hitler - na Alemanha
Franco - na Espanha ,Salazar - em Portugal Mussolini - na Itália, Peron - na Argentina

Clímax da obra
O primeiro poema intitulado Sentimento do Mundo  resume bem toda a ideia e a visão que o autor expõe ao longo de toda a obra. Sentimento do Mundo faz uma crítica aos tempos de guerras (evidenciados com os movimentos da Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial, Estado Novo de Getúlio Vargas, Fascismo e Nazismo) e sobre o poder de destruição do homem.

Tenho apenas duas mãos 
e o sentimento do mundo 
mas estou cheio de escravos 
minhas lembranças escorrem 
e o corpo transige 
na confluência do amor.
 ("Sentimento do mundo)

 Congresso Internacional do Medo revela isso com toda a força.
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


 Com José e Mãos Dadas forma uma tríade de poemas essencialmente políticos, reveladores do engajamento de Drummond na luta pela liberdade.
A consciência do momento histórico produz a indagação sobre o sentido da vida para a qual o poeta só encontra uma resposta pessimista: "sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas"
O poema usa uma expressão bem corriqueira "morreremos de medo" num contexto bem político, com sentido de covardia coletiva, pois não há uma predisposição do povo para enfrentar os ditadores. Pelo contrário, eles tinham o apoio popular.


Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro. 
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. 
Entre eles, considero a enorme realidade. 
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. 

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, 
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. 
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes, 
a vida presente.


Relação de poemas (28)


Sentimento de Mundo Confidência do Itabirano 
Poema da Necessidade
Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte
Tristeza do Império
Operário no Mar (prosa)
Menino Chorando na Noite
Morro da Babilônia
Congresso Internacional do Medo
Os Mortos de Sobrecasaca
Privilégio do Mar
Inocentes do Leblon
Canção do Berço
Indecisão de Méier
Bolero de Ravel
La Possession du Monde
Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro
Os Ombros Suportam o Mundo
Mãos Dadas

Dentaduras Duplas
Revelação do Subúrbio
A Noite Dissolve os Homens
Madrigal Lúgubre
Lembrança do Mundo Antigo
Elegia 1938
Mundo Grande
Noturno à Janela do Apartamento

OBS : embora todos os poemas de Drummond sejam significativamente especiais, os assinalados em negrito correspondem aos mais divulgados e solicitados em provas.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Viagens na minha terra /sinopse





CONTEXTO:

1-O autor : Almeida Garrett

2-Tempo Literário: Primeiro momento do Romantismo em Portugal-                                                                O Romance Histórico.As invasões napoleônicas; a mudança do regime político: absolutismo /  liberalismo. Em época de intenso nacionalismo, essa literatura resgata valores do passado histórico português.  Recupera os heróis medievais, oriundos de uma época de grande significação para o país, misturando-os com a ficção romântica  cheia de imaginação e sofrimento.

3-Características:
Nacionalismo, historicismo e medievalismo:
Engrandecimento dos valores e  dos heróis nacionais, seu passado histórico, em especial o período medieval.

4-Bibliografia


-Camões (1825)
- Dona Branca (1826)
- Adozinda (1828)
- Catão (1828)
- Romanceiro (1843)
- Cancioneiro Geral (1843)
- Frei Luís de Sousa (1844)
- Flores sem Fruto (1844)
- D’o Arco de Santana (1845)                                                                                                                                          -Viagens na Minha Terra (1846 )
- Folhas Caídas (1853)


5- A obra: romance histórico ( ?) / Viagens na minha terra.

Gênero textual: na verdade temos um romance híbrido, composto de relatos autobiográficos, anotações da viagem que o autor realiza, crônica histórica e social, reflexões literárias e filosóficas, além de novela sentimental.

Foco Narrativo: em primeira pessoa, como narrador participante (relata seu ponto de vista, opiniões, suas experiências ao visitar pontos históricos das cidades portuguesas como Igrejas, ruínas, túmulos de personalidades famosas e santos, entre outros).
Estrutura : 49 capítulos

Tempo :   cronológico,( 6 dias) com uso de flashback , feito através de digressões.                              Presente e passado históricos do país.

Enredo : Uma viagem de Lisboa a Santarém ( intensa descrição da paisagem), cenário onde se desenrola uma novela / o trágico amor de Joaninha dos Rouxinóis e Carlos.

Título: “Viagens”
 - viagem geográfica–narração das paisagens do interior de Portugal.
 - viagem histórica- ao passado do país, a história de Portugal,
 - viagem sentimental: o romance de Carlos e Joaninha
  - viagem crítica: reflexões sobre o país e sua história.

O possessivo "minha":-O sentimento de posse ;a relação de intimidade; carácter subjetivo do discurso.

O substantivo "terra": a ligação telúrica do autor com a Pátria;o nacionalismo.

Personagens: 
Joaninha (dos olhos verdes)-graciosa e frágil. Extremamente sentimental, enlouquece por não suportar as crueldades sociais, vindo a falecer no final da história. Ingênua e pura simboliza a vida campesina sem a corrupção urbana. - a mulher anjo.
Carlos (primo de Joaninha): é um homem submetido a valores sociais  pela inconstância .É um suicida moral, porque perde seus ideais, tornando-se materialista e politiqueiro. O fracasso de Carlos é o retrato do que acontece com o país. O homem social.
Georgina–mulher de personalidade forte, enérgica, abnegada. ( noiva inglesa de Carlos)
D.Dinis - amargo e rígido, tornou-se franciscano para expiar seus  erros.( pai de Carlos)
Francisca - avó de Joaninha, velha e cega, representa Portugal. Simboliza  a imprudência com a qual o liberalismo foi assumido pelos Portugueses.

6-Simbologia :
Carlos e D. Dinis
Pai e filho representam D. Quixote (espiritualismo) e Sancho Pança (materialismo) em fases diferentes de suas vidas. Frei Dinis é, inicialmente, materialista. Somente diante do remorso pelo pecado cometido espiritualiza-se, tornando-se um frade austero. Carlos, ao contrário, luta pelos ideais do liberalismo e, depois de descobrir que é filho do frade, foge e se torna barão (materialista). Por isso, Helder Macedo afirma que estes personagens são “espelhos, imagens inversas um do outro”.

Joaninha e Georgina
Representam o ideal moral positivo. Segundo Helder Macedo, Joaninha seria a essência do bem inerente às sociedades tradicionais – o arquétipo de Portugal – e Georgina, a essência do bem inerente às “sociedades modernas – arquétipo do progresso no século XIX que era a Inglaterra do liberalismo triunfante”.

7-Considerações gerais:
Viagens na minha terra foi publicado entre anos  1843 e 1846, na Revista Universal Lisbonense.
O primeiro plano da narrativa é a viagem – real e simbólica – que Garrett faz até o vale de Santarém; o segundo é a novela “A Menina dos Rouxinóis”, que passa a ser contada a partir do capítulo X.
 Metalinguagem, digressão, crítica política e social, reflexão, sentimentalismo são algumas das características presentes no texto, representando o primeiro momento do Romantismo em Portugal, no qual Viagens na minha terra é inserido com propriedade como romance nacionalista.