sexta-feira, 3 de setembro de 2021

TERRA SONÂMBULA - Parte 2 - Fuvest 2022


Terra Sonâmbula  /  Parte 2

Por outro prisma, a relação fraternal entre os dois personagens também é uma constante no livro, sobretudo porque ambos acolhem-se como pai e filho – ou tio e sobrinho. Em meio a essa relação, Muidinga busca sempre  suas raízes, descobre que o velho o tirou de uma vala de um campo de desabrigados onde jogavam crianças mortas. Ao ver que o menino estava vivo, Tuahir o salva. Todavia, ele não se lembra de nada disso, pois o velho o levou em um feiticeiro para que ele esquecesse o seu passado, o que acaba por não funcionar no momento em que o pequeno termina de ler os cadernos de Kindzu e descobre a sua origem.

No que se refere aos cadernos lidos por Tuahir e Muidinga em seu cotidiano solitário e faminto, Kindzu é escritor e protagonistas dessa história, narrada em forma de diário. Dentre os principais temas tratados,  em primeiro lugar, o desenraizamento do lugar de origem. Kindzu, ao ver o seu mundo tradicional se desestruturar com a guerra civil, sente-se perdido e quer procurar novos lugares. A consequência disso é um desprendimento de sua terra natal.

Esse desprendimento não vai ser bem compreendido pelo seu pai, mesmo esse estando morto. Aí partimos para um segundo tema recorrente no romance: relação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Uma ideia que pode parecer estranha à ocidentais cristãos, mas demonstra o modo de pensar a vida e a morte na tradição moçambicana, visto que o contato entre os dois mundos ocorre sem estranheza. Os exemplos disso são muitos ao longo do livro. Entre eles há um no Segundo Caderno de Kindzu, quando Kindzu conversa com seu pai falecido através de um sonho. 

Nesse exemplo também se percebe um terceiro tema recorrente na obra: a importância dos sonhos na tradição moçambicana. Nos Cadernos de Kindzu nota-se a importância dos sonhos constantemente para a organização dos caminhos a serem seguidos. Kindzu afirma que “O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos”.

Um quarto tema está associado a podermos visualizar a importância da relação entre pai e filho, porquanto nos cadernos de Kindzu o pai aparece como uma figura importante e presente. Tanto assim, que Kindzu apenas começa a se sentir perdido em sua terra natal após a morte de seu pai, já considerava sobre si mesmo que: “Minha alma era um rio parado, nenhum vento me enluava a vela dos meus sonhos. Desde a morte de meu pai me derivo sozinho, órfão como uma onda, irmão das coisas sem nome” .

Outro importante tema tratado nos cadernos de Kindzu é o da sociedade racializada. Várias vezes é possível perceber as diferenciações raciais existentes na sociedade moçambicana. A partir dessa relação de Kindzu com o indiano Surendra Valá também percebemos a influência da cultura muçulmana e indiana na região, resultando nas tradições suailis. Um excerto que ilustra isso bem é quando Kindzu faz referência “aos perigos” dele se relacionar com um indiano. “Surendra sabia que minha gente não perdoava aquela convivência. Mas ele não podia compreender a razão. Problema não era ele nem a raça dele. Problema era eu. Minha família receava que eu me afastasse de meu mundo original. Tinham seus motivos. Primeiro, era a escola. Ou antes: minha amizade com meu mestre o professor. [...] Pior, pior era Surendra Valá. Com o indiano minha alma arriscava se mulatar, em mestiçagem de baixa qualidade (COUTO, 2007: 24-25).”

Um sexto tema importante dos cadernos é a presença das mulheres e as possibilidades de atuação feminina em um contexto machista. Essa atuação pode ser percebida, por exemplo, quando Carolinda faz uso de sua posição para tentar matar sua irmã, Farida.

A rigor, os temas históricos que aparecem no romance seriam: a independência (expresso na figura de Junhito); a guerra civil; os campos de refugiados; os bandos armados; a corrupção (exemplificada na cidade de Matimati e na personagem Assane); o contexto ideológico influenciado pelo marxismo (administrador); e a figura do colonizador (Romão Pinto).

 Kindzu é Muidinga e vice-versa;através do relato contado, Kindzu reencontra o pai e com ele se reconcilia, e Muidinga encontra em Tuahir o pai que procurava. A cada momento as narrativas de Kindzu e Muidinga vão se tocando e se entrelaçando. Sente-se esse entrelaçamento a partir do momento em que surge no relato a personagem Farida. Ela aparece nos cadernos de Kindzu, conta a sua história e diz que está a procura de seu filho Gaspar. Kindzu se apaixona por Farida. Levada pelos acontecimentos, Farida se isola em um barco que se encontra encalhado, abandonado, como se fosse um barco fantasma. Nesse navio, os dois se encontram e relatam seus sonhos um para o outro. Esse navio pode simbolizar os sonhos impossíveis, uma vez que se encontra encalhado e abandonado como um navio fantasma: 

Ao fazer referência a corrupção que ocorria em seu país durante o contexto de guerra, Kindzu escreve em seu sexto caderno que Farida queria conhecer mais, saber o motivo da guerra, a razão daquele desfile de infinitos lutos. Relata que lembrou as palavras de Surendra, que diziam que tinha que haver guerra, tinha que haver morte.

E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre outros.

Com esse excerto fica compreensível o modo como a guerra facilita a ação de um governo desorganizado e corrupto em um país. Nesse sentido, outro personagem que ilustra a ação corrupta em um país em estado de guerra é Assane, já que exemplifica as possibilidades de corrupção que isso permite aos funcionários. O próprio machimbombo onde Kindzu estava se deslocando quando morre queimado era fruto de uma empresa de Assane que prosperou com esse contexto. Sabemos do advento desse tipo de negócio através das seguintes palavras do último caderno de Kindzu: “Fingi nem reparar. Nossa empresa? Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode prosperar mais rápido que em normais tempos de paz” 

A obra retrata a impressão de um contexto histórico em que chega ao fim um mundo uma sociedade e suas tradições específicas, sem dar grandes projeções de um novo mundo próspero. Apenas o que se tem são esperanças de alguns dos viventes desses tempos de guerra. Farida e Kindzu podem ser pensados como analogias de uma geração perdida entre a tradição moçambicana e a cultura imposta pela dominação colonial (Farida) ou entre a tradição moçambicana e o novo país que se estrutura com a independência (Kindzu). Ambos estariam perdidos entre esses mundos e tentando se encontrar após a dominação colonial.
 
No seu Quinto caderno, Kindzu escreve:
Entendia o que me unia àquela mulher: Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do Pastor Afonso, de Vírginia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, ela queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair da África, eu queria encontrar um outro continente dentro da África. Mas uma diferenças nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doenças da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar.
 

 Continua na Parte 3

 

 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

TERRA SONÂMBULA...Fuvest 22 ( um presente 💯)


OBS IMPORTANTE: 

Nenhum resumo e/ ou análise de livro isenta o aluno da leitura do texto integral.  Nada substitui a obra completa :o estilo, o vocabulário, as particularidades do enredo  , todos são essenciais para sua intelecção.O que está aqui deve ampliar  a sua análise particular da leitura, jamais substituí-la.

NÃO É UM RESUMO.É UMA ANÁLISE DA OBRA.

Parte1 

Terra Sonâmbula

"O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro."

Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho. Crença dos habitantes de Matimati .

Terra Sonâmbula de Mia Couto discorre sobre duas histórias que a princípio parecem distintas, mas que ao final do texto se ligam : rm Capítulos e em Cadernos de Kindzu, estruturados de forma que ,após cada Capítulo inicia-se um Caderno de Kindzu. Quanto a esses Cadernos , é extremamente importante para estabelecer o contexto histórico no qual a história se desenvolve. 

 CONTEXTO :O livro demonstra a miséria pelo qual passava Moçambique após a descolonização. Momento sócio-político da guerra civil – início dos anos 90 – 1992 Para ilustrar isso o autor utiliza uma metáfora através do pensamento de Kindzu, quando a personagem afirma que “Agora, eu via o meu país como uma dessas baleias que vêm agonizar na praia. A morte nem sucedera e já as facas lhe roubavam pedaços, cada um tentando o mais para si. Como se aquele fosse o último animal, a derradeira oportunidade de ganhar uma porção” .

Tuahir e Muidinga  perambulam por  uma “estrada morta”. Tuahir , um velho e Muidinga, um menino que deve ter em torno de 11 anos. O pequeno é chamado de miúdo pelo velho. Tuahir e Muidinga são dois desabrigados que vagam pela Moçambique da pós-independência tentando sobreviver. Há uma clara referência ao deslocamento causado pela guerra civil que se instalou no país após a independência. Durante esse deslocamento eles encontram um machimbombo (ônibus) queimado e instalam-se nele. Nele há pessoas mortas e uma delas carrega uma mala, na qual estavam guardadas comida e alguns escritos denominados "Cadernos de Kindzu."Os cadernos são recolhidos e lidos por Muidinga para os dois, visando preencher seus dias e noites solitários.

Na medida em que a leitura se desenrola, as personagens penetram cada vez mais na história e, sentindo a necessidade da leitura dela, de modo que o próprio Tuahir chega a afirmar, ao final do quinto capítulo, que “Esse fidamãe desse Kindzu já vive quase conosco” .                              Ao fim desse capítulo vê-se a importância da contação de histórias em Terra Sonâmbula, que  expressa a importância dessa prática na cultura moçambicana. ( Oralidade).

Um elemento importante levantado a partir do ato de contar a história nesse livro é o fato de ser o jovem Muidinga que conta a história e não o idoso Tuahir, como sempre imaginamos ao pensar na figura do griô. Isso acontece porque a contação da história de Kindzu ocorre através do domínio da leitura, que é um conhecimento das gerações mais novas.

 Essa integração do velho ao novo se observa também no capítulo em que é narrada a história de Siqueleto, um ancião que ficara só numa das aldeias abandonadas. Tuahir e Muidinga o encontram porque caem numa armadilha e são salvos por ele. Siqueleto fala a língua local e Muidinga não a entende, Tuahir serve de intérprete. No final, Siqueleto pede que Muidinga escreva seu nome numa árvore, mostrando agora a dependência do velho ao novo. Logo, esses acontecimentos corroboram para reafirmar o que foi dito: o novo anda de mãos dadas com o velho. 

O conhecimento ancestral é necessário para que se possa construir um novo paradigma , Couto mostra o respeito que o menino tem pelo mais velho, expresso, por exemplo, na confiança que o miúdo deposita em Tuahir quanto ao conhecimento do caminho de volta para o ônibus, quando parecem perdidos.

Outro  elemento da contação de histórias é  ainda percebido quando, no início do quinto capítulo, o narrador chama o machimbombo de moradia e, ao fim, Tuahir revela a importância que as histórias de Kindzu têm para eles. Isso nos permite pensar que a contação de histórias inclusive estabelece um laço de moradia com o lugar onde ela é contada, estabelecendo uma ligação entre o Machimbombo queimado e os dois personagens.

Esse contar é feito ritualisticamente à beira da fogueira, como nas comunidades arcaicas. Do ponto de vista da produção cultural, a arte de contar é uma prática ritualística, um ato de iniciação ao universo da africanidade, e tal prática e ato são, sobretudo, um gesto de prazer pelo qual o mundo real dá lugar ao momento meramente possível que, feito voz, desengrena a realidade e desata a fantasia.

Enfim, o que prende Muidinga e Tuahir no machimbombo? Na primeira vez que Tuahir sai do local, Muidinga diz que são os Cadernos de Kindzu que despertam a vontade de voltar ao abrigo. Já quando Muidinga quis sair dali, Tuahir usa a desculpa de que ali ninguém apareceria e ali estariam protegidos, pois o país estando em guerra era melhor que ninguém os encontrasse.

 A partir do quarto capítulo (o da morte de Siqueleto), quando os personagens parecem estar estabelecidos no machimbombo, eles começam andar em círculos ao redor de onde ele se encontrava. Nesse momento é que Tuahir e Muidinga começam a conhecer o entorno e passam a acontecer coisas ao seu redor. No quinto capítulo o ônibus já é designado como moradia pelo narrador. Somente no final da história eles se despedem de vez do lugar, para encontrar o mar.

( continua nas partes 2 e 3)

 

 

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Amor à primeira vista? ❤ Existe mesmo???



 Simmmmm...existe!Até em redação!😊

Surge, quando o corretor de um texto começa a lê-lo e se encanta com o que encontrou. Quem é que não se apaixona por um jovem antenado capaz de se expressar bonito e bem?Ele percebe que não é um texto comum, óbvio, mas de alguém que tem repertório.

"Repertório"???? Sim...o que você apreendeu do mundo que o circunda, do entorno em que você vive. E não é só leitura de livros e jornais.É observação de como anda o mundo na política, na sociedade, na educação , na saúde, no entretenimento, enfim leitura de tudo. É atraves dela que você se torna informado e crítico.

É com essa bagagem cultural que você inicia seu texto, contextualizando-o para, depois, desenvolver  Isso se chama INTRODUCÃO. É aqui que você vai fazer o corretor de texto se apaixonar pelo que você começou a dizer. E aqui que ele vai dizer pra si mesmo: oba! que interessante! E vai ler/ corrigir seu texto sentindo-se confortável e sem expectativas negativas.

Entre outros motivos, há um bem claro: o que começa bem tem grande chance de acabar bem.O prognóstico observado pela introdução é altamente positivo para o desenvolvimento textual.Seu repertório se incumbirá disso.

Então começar bem um texto é vantajoso? ABSOLUTAMENTE SIM!

Mas não é só.Não é preciso nem dizer que a pessoa que lê - tudo, qualquer coisa- leva vantagem sobre quem não lê, claro!

Ah! Mas eu odeio ler! Dá sono! Cansa!...Tudo é questão de hábito e de preferências. Há leitores vorazes e há os que são " obrigados" a ler como os vestibulandos.Por quê? 

Então...porque 70% dos textos das provas são ininteligíveis, pobres de vocabuĺario e de conteudo e isso é inadmissivel! Ah!...mas vou ser médico! Engenheiro! Analista de sistemas...por que preciso escrever bem? E ler?

Bem...deixando o vestibular de lado, porque você é um ser humano racional e sensível. Se você alimenta o corpo com uma boa refeição, é preciso alimentar a essencia, a alma, com conhecimento critico.Afinal, o corpo não é só o físico.

Resumindo...só você pode decidir o que quer para o seu amanhã, porém o hoje é o momento onde tudo acontece. Determinar o que realmente pretende e ir à luta.

Vale a pena investir em você.É preciso gostar de si próprio para encantar o outro, incluindo   ...um corretor de redação...🤗🤭🤔

Pense nisso com carinho.Mas não demore. O fim do ano para vestibular já começa em novembro.

Sabe quantas semanas faltam ????? 10.





segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Produção de texto :UNESP

UNESP 

 

Escrever

Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.

Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.

Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.

Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos.

Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros.

(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999.)

 

Escrevendo o roteiro

Escrever um roteiro é um fenômeno espantoso, quase misterioso. Num dia você está com as coisas sob controle, no dia seguinte sob o controle delas, perdido em confusão e incerteza. Num dia tudo funciona, no outro não; ninguém sabe como ou por quê. É o processo criativo; que desafia análises; é mágica e maravilha.

Tudo o que foi dito ou registrado sobre a experiência de escrever desde o início dos tempos resume-se a uma coisa — escrever é sua experiência particular, pessoal. De ninguém mais.

Muita gente contribui para a feitura de um filme, mas o roteirista é a única pessoa que se senta e encara a folha de papel em branco.

Escrever é trabalho duro, uma tarefa cotidiana, de sentar-se diariamente diante de seu bloco de notas, máquina de escrever ou computador, colocando palavras no papel. Você tem que investir tempo.Antes de começar a escrever, você tem que achar tempo para escrever.

Quantas horas por dia você precisa dedicar-se a escrever?

Depende de você. Eu trabalho cerca de quatro horas por dia, cinco dias por semana. John Millius escreve uma hora por dia, sete dias por semana, entre 5 e 6 da tarde. Stirling Silliphant, que escreveu The Towering Inferno (Inferno na Torre), às vezes escreve 12 horas por dia. Paul Schrader trabalha com a história na cabeça por meses, contando-a para as pessoas até

que ele a conheça completamente; então ele “pula na máquina” e a escreve em cerca de duas semanas. Depois ele gastará semanas polindo e consertando a história.

Você precisa de duas a três horas por dia para escrever um roteiro.

Olhe para a sua agenda diária. Examine o seu tempo. Se você trabalha em horário integral, ou cuidando da casa e da família, seu tempo é limitado. Você terá que achar o melhor horário para escrever. Você é o tipo de pessoa que trabalha melhor pela manhã? Ou só vai acordar e ficar alerta no final da tarde? Tarde da noite pode ser um bom horário. Descubra.

(Syd Field. Manual do roteiro, 1995.)

 

Proposição

Desde pequeno, você vem sendo submetido, na escola, à prática de escrever. Com o passar do tempo, as exigências se tornaram cada vez maiores para que você aumentasse a qualidade de seus textos e não demorou muito para perceber que lá adiante, no fim do túnel do Ensino Médio, haveria uma prova muito importante, com bom peso na nota: a redação no vestibular.

Nesse trajeto, em muitos momentos, você se perguntou: Afinal, para que escrever? Para que fazer uma boa redação? Só para passar no vestibular? Na era da internet, para que eu tenho de aprender a redigir, se a comunicação visual funciona muito melhor? Eu não sou escritor, não preciso saber criar textos!

É isso o que você pensa mesmo? Ou são apenas desabafos? Pois chegou a hora de dizer realmente o que pensa sobre o escrever. Para Clarice Lispector, escrever é maldição e salvação. Para Syd Field, é uma atividade profissional muito importante dentro da atividade geral da arte cinematográfica. E para você?


PROPOSTA:

 

Com base nestes comentários, em sua própria experiência e, se achar necessário, levando em consideração os textos de Clarice Lispector e Syd Field, escreva uma redação de gênero dissertativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:

 

Escrevero trabalho e a inspiração.

DICA : Escrever é hábito.Organize sua agenda e nela coloque um horário semanal para exercitar suas criações.
Não deixe para amanhã.
O dia é hoje!!!!!




sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O verbo é RECOMEÇAR!

A verdade é que todos precisamos de um tempo para reflexão, reciclagem, exercitar novos pontos de vista sobre um mesmo tema...enfim, sempre é possível recomeçar. 

<> Um blog reflete o espírito e o entusiasmo de quem o cria.É falso dizer que somos objetivos. Mesmo quando se usa técnicas pré-estabelecidas, cada pessoa as expõe de acordo com quem é e como as assimila.<>

   Esse blog já abriu caminho para muitos jovens , mas há 6 anos atrás, movida por novos desafios, eu o deixei adormecer.Morrer, jamais. <>

Estamos passando por um momento crítico pandêmico e a educação tem sido violentamente prejudicada. Mas...
<>NADA É PARA SEMPRE, felizmente. As aulas presenciais estão voltando, vagarosas, e o mundo acadêmico está repleto de expectativas e 2022 é  logo ali. Pois bem...estamos nessa vibe.<> 

 Desejamos que você venha ao SEJA O PRIMEIRO! não só sentindo-se o primeiro, mas sim sentindo-se ÚNICO! <>

<>PS: Aqui você encontrará análises de livros,possíveis temas de redacão, exercícios discursivos e testes de lieratura.

<> Mas , não se esqueça de dar uma olhada cuidadosa no que está postado anteriormente. 
 Acredite: há dicas preciosas , principalmente para os grandes vestibulares e para o ENEM.<>

Sinta-se em casa!😉😊🏡
Boa sorte!🍀

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Redução da maioridade penal...um caso explícito de Direitos Humanos.


  • Embora grande parte da populacão se manifeste a favor da redução da maioridade penal, leia os textos abaixo, reflita e pergunte à sua consciência : 
PODE UMA SOCIEDADE QUE NÃO PROTEGE SUAS CRIANÇAS JULGÁ-LAS E CONDENÁ-LAS???...
Dependendo do seu ponto de vista respeito do assunto, você deve enviar uma carta a um dos dois redatores abaixo, expondo sua opinião,  argumentando a favor dela.
 Redija um texto dissertativo-argumentativo sobre o tema, expondo argumentos que justifiquem o ponto de vista por você adotado. 
A banca não considera posicionamento ideológico, desde que sua proposta não seja direcionada ao ENEM. Neste você devera respeitar os direitos humanos e propor soluções.


Em artigos, de um lado, o desembargador Siro Darlan condena a hipocrisia de um debate que oculta o “viveiro realimentador de violência” das unidades de ressocialização. De outro, Jorge Damús Filho, pai de uma vítima da violência, defende redução da maioridade penal.

Contra:
Visita ao inferno por R$ 4.400 
por adolescente. 
                                                                                                                                                            Siro Darlan*                                                                                                                                                
 Após ler no jornal a declaração atribuída à secretária Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República de que um jovem privado da liberdade custava ao contribuinte R$ 4.400 por mês, tive a curiosidade de visitar uma unidade destinada a ressocializar adolescentes. Fomos até o Instituto Padre Severino na condição de vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, acompanhado do vice-presidente da OAB-RJ [Ordem dos Advogados do Brasil], Dr. Lauro Schuch, e de vários conselheiros tutelares.Antes procuramos o novo diretor do Degase [Departamento Geral de Ações Socioeducativas], responsável pela administração do Sistema Socioeducativo no estado, e não o encontramos. Diante do emocionado debate sobre redução da responsabilidade penal, resolvemos documentar a visita com uma câmera para poder dar visibilidade a esse lado da moeda.

Não foi surpresa saber que onde só cabem 130 jovens em cumprimento de medida havia 230. Horrorizada, a equipe que visitava o Instituto Padre Severino constatou que o lugar que chamam de cama era um beliche de cimento sem colchão, onde dormem dois, às vezes três jovens adolescentes. Escova de dente só têm aqueles que a recebem dos familiares. Assim mesmo, é cortada pela metade pelos agentes de segurança. O local destinado à higiene pessoal estava infestado de ratos e baratas e a comida era servida em quentinhas frias e com limite de cinco minutos para engolirem o que é servido duas vezes ao dia.
As oficinas profissionalizantes não funcionam porque há mais de três anos não recebem materiais e os mestres estão ociosos. A única oficina ainda resiste no aprendizado de fazer pipas, graças a doações dos funcionários ao esforçado professor.

Os jovens permanecem enjaulados nas celas infectas e promíscuas de onde só saem para o refeitório e para as salas de aula, único serviço que funciona bem graças ao convênio com a Secretaria de Educação e aos esforços das professoras que se dedicam ao ensino básico e precário dos jovens infratores. Os médicos e medicamentos são raros, não há antibióticos, e muitos jovens apresentam sinais de violência em seus corpos sem o tratamento adequado. Sarna e coceiras são constatados sem maior esforço através de simples visualização. Não é sequer fornecido aos jovens um chinelo, e muitos, exceto aqueles que recebem dos familiares, andam descalços no chão imundo e impuro.
Contudo o Brasil é signatário do documento que impõe aos países civilizados o respeito às Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade. E, ao se verificar que os jovens brasileiros estão sendo submetidos a unidades que não cumprem tais regras, identifica-se a preocupação do presidente da República ao atribuir as causas reais da violência à falta de respeito à legislação por parte dos administradores públicos.

Reza o referido documento que o sistema de justiça da infância e da juventude deverá respeitar os direitos e a segurança dos jovens e fomentar seu bem-estar físico e mental. Não deveria ser economizado esforço para abolir, na medida do possível, a prisão de jovens.A privação de liberdade de um jovem deverá ser decidida apenas em último caso e pelo menor espaço de tempo possível. Deverá ser limitada a casos excepcionais, por exemplo, como efeito de cumprimento de uma sentença depois da condenação, para os tipos mais graves de delitos, e tendo presente, devidamente, todas as circunstâncias e condições do caso.

Foi encontrado na unidade um jovem com 14 anos privado da liberdade havia 30 dias por haver sido pego pescando em área proibida. E o mais grave é que, contrariando norma legal, encontrava-se no mesmo espaço físico de outros que haviam cometido atos infracionais mais graves.

Há mais de três anos que o Instituto Padre Severino não recebe qualquer material para desenvolver ensino profissionalizante, mas as Regras Mínimas de Riad destacam que a privação da liberdade deverá ser efetuada em condições e circunstâncias que garantam o respeito aos direitos humanos dos jovens. Deverá ser garantido, aos jovens reclusos em centros, o direito a desfrutar de atividades e programas úteis que sirvam para fomentar e garantir seu são desenvolvimento e sua dignidade, promover seu sentido de responsabilidade e fomentar neles atitudes e conhecimentos que ajudem a desenvolver suas possibilidades como membros da sociedade.Segundo as Nações Unidas, os jovens privados de liberdade terão direito a contar com locais e serviços que satisfaçam todas as exigências da higiene e da dignidade humana. E as instalações sanitárias deverão ser de um nível adequado e estar localizadas de maneira que o jovem possa satisfazer suas necessidades físicas na intimidade e de forma asseada e decente.

Finalmente, o Brasil está obrigado a garantir que todos os centros de detenção devem garantir que todo jovem terá uma alimentação adequadamente preparada e servida nas horas habituais, em qualidade e quantidade que satisfaçam as normas da dietética, da higiene e da saúde e, na medida do possível, as exigências religiosas e culturais. Todo jovem deverá ter, a todo o momento, água limpa e potável.

Quem é o infrator? A autoridade governamental que descumpre a Constituição do país e até mesmo os compromissos assumidos com a comunidade internacional ou o jovem que, diante desse exemplo de transgressão, comete atos infracionais? Não seria o caso de cobrar dos adultos exemplos e coerência no desempenho de suas funções públicas para então discutir redução de responsabilidade penal para jovens?Como ressocializar esses jovens mantendo-os no viveiro realimentador da violência que os vitimiza desde sua concepção? O resto é hipocrisia e continuar enganando a sociedade através do desvio do verdadeiro debate, que pode levar à paz social tão almejada.

* Siro Darlan é desembargador e vice-presidente do C. Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do RJ.            ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

A Favor: IMPUNIDADE                                                                                                                                                                                         Jorge Damús Filho*
Muitos dizem que as medidas socioeducativas do ECA não são cumpridas. Isso não muda a questão dos crimes cometidos por menores de 18 anos. Mesmo cumpridas as medidas, existe a necessidade da redução da maioridade penal. É preciso reconhecer que a impunidade preconizada pelo ECA não pode continuar. Temos de encontrar um meio de afastar do convívio social, por mais tempo possível, aqueles criminosos que colocam em risco a própria estrutura democrática, tenham eles a idade que tiverem.

Pelas peculiaridades de nossa população, e tendo em vista o avanço dos meios de comunicação, que promovem o amadurecimento precoce dos adolescentes, é impossível que um jovem entre 14 e 17 anos, com uma arma na mão, não saiba que se puxar o gatilho e atirar contra uma pessoa vai matá-la, assim como, ao roubar um carro e arrastar uma criança de 6 anos preso pelo cinto de segurança pelo lado de fora do veículo, não sabia que iria tirar a vida dela.Se a população, os governantes, autoridades, entidades de defesa dos direitos humanos, a OAB, o presidente da República, a presidente do STF e o ministro da Justiça acreditarem que cadeia não resolve, por que, então, discriminar o maior de 18 anos e prendê-lo? Como a cadeia não resolve, vamos soltar todos - menores ou maiores de 18 anos. Chocante, não é?

Alguns doutrinadores defendem que reduzir a maioridade penal seria inconstitucional, já que o artigo 60, parágrafo 4º, da Constituição Federal proíbe emendas que venham a abolir direitos e garantias individuais. Ora, temos dois fatores a explanar quanto a este assunto. O primeiro é: o que é inconstitucional? Hoje é implementada uma série de emendas constitucionais.
Inconstitucionais seriam medidas contra o espírito do texto da Constituição. Como podem ser inconstitucionais mudanças que, ao serem implementadas, irão proteger a maioria da população quanto ao direito e às garantias individuais de vida, colocando na cadeia criminosos cruéis, frios, que matam por motivos fúteis. Digo a maioria da população porque os bandidos e criminosos não são maioria. Se fossem, não estaríamos vivos neste momento, escrevendo sobre tais assuntos. 

Acompanho muitos debates sobre a questão da maioridade penal, envolvendo deputados, senadores, governadores, comissões, OAB, entidades de direitos humanos, o que prova que não há inconstitucionalidade. Se assim fosse, o que dizer do novo Código Civil, que reduziu a maioridade de 21 para 18 anos? É a mesma coisa! Ou são "dois pesos e uma medida"?
Enquetes mais recentes do Terra, da Rádio Bandeirantes e do Último Segundo no IG revelam que cerca de 80% a 90% dos resultados são favoráveis à redução da maioridade penal para 16 anos, no mínimo.
Se estas colocações não bastam, reforço a questão do plebiscito sobre a maioridade penal, porque acredito que inconstitucional seja o Estado e a União não garantirem a segurança da população, do cidadão de bem, que paga impostos e ajuda a Nação em seu desenvolvimento. Inconstitucional é permitir que cidadãos de bem sejam mortos (homicídios e latrocínios) por menores de 18 anos que ficam impunes. Os maiores também ficam, pois nossas leis carregam tantos subterfúgios na defesa dos criminosos que dificilmente constatamos a verdadeira aplicação da Justiça.

Querem mais exemplos inconstitucionais? São as 50 mil vítimas de homicídios e latrocínios por ano em nosso país. Inconstitucional é o tremendo esforço de alguns setores em defenderem direitos e regalias a bandidos de todas as espécies, sejam menores ou maiores de 18 anos. Inconstitucional é libertar criminosos de alta periculosidade para matar os honestos cumpridores da lei aqui de fora. Saem livres sem qualquer critério. Inconstitucionais são as visitas intimas nos presídios, onde o diretor vira gerente de motel. Inconstitucionais são os benefícios concedidos a criminosos, em que cada ano da pena vale seis meses, mas para aposentar um cidadão honesto o ano tem 12 meses, nem um dia a menos.

Inconstitucionais são as pessoas sem emprego neste Brasil, muitos na indigência e outros na miséria. Já enviamos para o exterior bilhões e bilhões como pagamento da dívida externa. Os bancos obtiveram bilhões de lucro. As empresas públicas privatizadas têm suas tarifas aumentadas muito acima da inflação.

Só isso? Nem pensar. Todos nós pagamos obrigatoriamente a CPMF, mas quem especula na Bolsa de Valores está isento - nacionais e estrangeiros. Vá o Zé da Silva demonstrar que não pode pagar suas contas , nem seus impostos. Para ele, não existe o BNDES. Voltando à questão da maioridade penal, não é necessário um grande esforço para perceber que os índices de crimes cometidos por menores continuarão subindo, sempre em proporção geométrica, e que após os 18 anos ele seguirá em frente até que o ex-infrator e agora criminoso seja preso ou morto.

Se a prisão ocorresse antes de um número grande de crimes, muitos poderiam ser evitados. Podemos afirmar que a maioria dos detentos de hoje tenha também uma grande ficha como menor infrator – que enquanto menor existe e após os 18 anos é zerada. Só espero que cada família brasileira não tenha que perder mais um filho, filha, mãe ou pai para o crime para acordar para a realidade de nossas leis, que não atendem mais ao nível de criminalidade que impera em nossa cidade, nosso estado e nosso país. O bandido juvenil já sabe disso, e quando é preso já vai falando: “Sou dimenor, não me coloca a mão, tá!”.

Os favoráveis à redução da maioridade penal devem manifestar-se em prol da legião de vítimas desses menores criminosos, frios e acobertados pelo leniente ECA.

* Jorge Damús Filho é pai do Rodrigo, assassinado em 1999, em São Paulo. Este artigo foi originalmente produzido em duas partes, sob o título "A impunidade do menor". A que publicamos aqui é a segunda. A outra está disponível em www.atequando.com.br/man_231003.html.(Fonte: www.rits.org.br)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Migrar é um direito humano.



PRODUÇÃO DE TEXTO :  XENOFOBIA

PROPOSTA - Migrar é um direito humano.

A xenofobia cresce na Europa
por Gianni Carta — publicado 21/12/2014 08h37,
A extrema-direita em toda a União pretende barrar ou expulsar imigrantes

A xenofobia está, mais uma vez, em ascensão no Velho Continente. Em comum, a extrema-direita quer barrar ou expulsar imigrantes e aqueles em busca de asilo. Pretende pôr um fim no acordo de Schengen, que permite a livre circulação de cidadãos europeus por 26 países. Almejam a eliminação do euro e, por tabela, o naufrágio da União Europeia para, e assim, reaver maior autonomia nacional.
 A crise econômica, é claro, faz eleitores de diferentes tendências ideológicas migrar para os partidos de extrema-direita.Por essas e outras, integrantes de partidos de centro-direita, como o UMP, e seu líder Nicolas Sarkozy, candidato à Presidência em 2017 na França, adotam o discurso. O principal alvo, quiçá o mais fácil no contexto de “perda de identidade”, é o estrangeiro. Motivo: ele oferece a face a uma mescla de temores.
 Resumiu na segunda-feira 15 Hollande: “Os estrangeiros são sempre acusados dos mesmos males... São sempre os mesmos preconceitos, as mesmas suspeitas invariavelmente impingidas”. Até numerosos cidadãos de países escandinavos, outrora considerados tolerantes, passaram a colocar estrangeiros na cruz.

O ciclo do ódio
por Wálter Maierovitch — publicado 21/08/2015 04h42
Preconceito e intolerância dominam o mundo.

Conta-se que Albert Einstein teria dito ser mais fácil desintegrar o átomo do que acabar com os ódios na sociedade. Basta atentar para os primeiros sete meses de 2015 para lhe dar razão.
Sobre o tráfico de desesperados migrantes para a Europa, comove o relato do sírio Eyas Hasoun, dado ao jornal Corriere della Sera no apagar de julho e logo após a morte da sua filha Raghad, de 11 anos.
A menina sofria de diabetes.  A esperança do pai era operá-la na Alemanha, onde ambos pretendiam chegar. Viajantes de um barco precário saído da Líbia, destinado ao tráfico de  seres humanos e  operado por uma das dezenas de organizações criminosas que passaram a deter parte do controle territorial e social do país depois da queda de Muammar Kaddafi, assassinado em 20 de outubro de 2011.

Segundo programado pelos traficantes de seres humanos, o barco chegaria à ilha siciliana de Lampedusa e Hasoun e Raghad fugiriam da Itália  para a Alemanha. Pai e filha enferma pretendiam manter a clandestinidade e, para isso, tentariam evitar o obrigatório registro imigratório, medida geradora de proibição de ingresso em país da União Europeia diverso daquele do desembarque. A esperança de Hasoun virou pó ao cabo da aventura vivida para deixar uma Síria em guerra, evitar as tropas fiéis a Bashar el-Assad e as decapitação por “soldados” fanáticos do Estado Islâmico. Em alto-mar, o traficante no comando da embarcação atirou a mochila de Raghad às águas, embora sabedor de conter toda a medicação necessária a mantê-la viva. Pela falta de insulina, Raghad agonizou e morreu no curso da travessia, sem largar a mão do pai, desesperado e sem alternativas.
Nem essa tragédia conseguiu abrandar a xenofobia europeia, encabeçada por líderes populistas-fascistas, como a francesa Marine Le Pen e o italiano leghista Matteo Salvini. Em cena, na Europa de hoje, duas posturas opostas. De um lado o papa Francisco, que recomenda priorizar o ser humano. Do outro, o odioso discurso da direita europeia pelo fim da migração continental, e a sustentar o enganoso discurso do “ajudar nas próprias casas, nos seus países”, como se fosse possível dissuadir fugitivos e enviar ajuda do Chifre da África à Guiné Equatorial e aportes à Ásia. Fora isso, até a esfinge de Gizé sabe que dirigentes africanos gostam de embolsar ajuda internacional e manter na miséria os seus povos.
Nesta semana, dois barcos saídos da Líbia, ambos à deriva e um deles a fazer água, emitiram o SOS, captado por portos italianos. Houve pronta ajuda e 700 fugitivos foram salvos. Esse episódio, na esteira da tragédia da menina Raghad, e de tantas outras. Desta vez, o secretário da CEI (a CNBB da Itália), monsenhor Galantino à frente, surge em cena para repisar o pensamento do papa Francisco na condenação do ódio aos imigrantes.

Sexta-feira, 12 de junho de 2015
 Xenofobia, Racismo e os Haitianos no Brasil
Por Jesús Sabariego, Pierre Guibentif , Cícero Krupp da Luz,  Gustavo Oliveira de Lima Pereira e Augusto Jobim do Amaral /Pensemos 

"Descobri que era negro quando cheguei ao Brasil"
Há um relato de um dos haitianos presentes no II Seminário do Fórum Permanente sobre Mobilidade Humana, ocorrido em Porto Alegre na Universidade Federal do RS, em novembro de 2013, a qual pode ser dado especial destaque: "eu não era negro no Haiti. Eu só descobri que era negro no Brasil". A frase, em tom de desabafo e denúncia, demonstra que a recepção dos haitianos no Brasil, bem como de outros migrantes também na mesma condição de vulnerabilidade, não vem sendo condizente com o passado brasileiro de acolhida a imigrantes oriundos de diversas partes do globo. Mais do que isso, o relato demonstra cruamente que a xenofobia "velada" (ou seja, disfarçada pela crítica tacanha de que não seriam eles haitianos e demais uma "mão de obra qualificada" para o país, pois, do contrário, seriam bem vindos), vem também acompanhada por um racismo também "muito bem" disfarçado, já que ninguém se considera racista no Brasil. Esse é o pensamento que leva a pronunciamentos que adentram o nível do delírio, como o do deputado Jair Bolsonaro, ao afirmar não existir racismo no Brasil.

Recentemente, num jornal de grande circulação da capital gaúcha, um leitor, inconformado com o anúncio da proximidade de chegada de novos haitianos ao estado, fez questão de registrar seu descontentamento. Disse ele: "não consigo entender como ele (referindo-se a algum colunista do jornal) pode aprovar a vinda de haitianos e senegaleses e outros similares, não na sua cor, pois não sou racista, mas pelo índice cultural, que conforme informa a imprensa é em 90% dos casos baixíssimo. [...] é comprovado que pessoas com pouca ou quase nada de formação cultural tem a tendência natural de caírem para o lado do crime [...]. A prova disso foram os escravos que vieram para o Brasil (negros) que chegaram sem nenhuma formação nem cultura, e proporcionalmente hoje ocupam a maioria das vagas nos presídios".
O breve comentário do leitor, por si só, já denota uma preciosidade sociológica, e quanto a ele cabem infindáveis possibilidades de análises que aqui nos ocuparemos por breves instantes antes de prosseguirmos. A primeira delas e talvez mais estridente: por que motivo o grandioso veículo de comunicação torna pública a opinião de conteúdo xenofóbico "velado" tamanhamente verificável?

É democrático publicizar todas as opiniões dos leitores ou opiniões que legitimam a violência? Devem tais mensagens racistas, por uma prerrogativa de promoção dos direitos humanos e desincentivo à difusão dos discursos de ódio, ser descartadas pelo corpo editorial? Outras milhares de questões ainda se acotovelam por aqui: quem são os tais "similares" aos haitianos aos quais o leitor se refere? Trata-se de uma questão peculiar à vinda dos haitianos ou é possível tão rapidamente assim tratar tal fenômeno migratório de forma tão genérica, sem um minucioso cuidado para evitar generalizações perigosas? É possível afirmar-se como "não-racista" após um comentário que associa procedência e cor ao fenômeno da criminalidade? (aliás, parece-nos que é até mesmo um pré-requisito para ser racista acreditar-se não ser um. Todos os racistas que conhecemos não se acham racistas, pois ninguém se auto proclama como racista, assim como ninguém se auto proclama como homofóbico. Logo, em linhas gerais, o preconceituoso velado que acredita não o ser, torna-se uma das principais linhas de ataque que aqui se irrompe).
(...)
Cabe, por fim, fundamentalmente lembrar que o direito de migrar é um direito humano. Independente de ser uma situação de migração voluntária ou uma migração forçada, o fato é que o direito de migrar pertence a todo e a qualquer ser humano, e só poderemos realmente construir uma verdadeira racionalidade voltada para uma formação social emancipatória em termos de direitos humanos se pararmos de tratar esses direitos humanos de forma à la carte.



* Pensemos é um círculo acadêmico internacional integrado por professores e pesquisadores universitários, do âmbito do Direito, da Filosofia, da Ciência Política, da Sociologia, da Educação, dos Direitos Humanos e Desenvolvimento, que tem por objetivo um encontro teórico e interdisciplinar sobre as problemáticas da democracia e dos sistemas políticos 


OBS : Foi preciso que uma foto inacreditavelmente chocante e dolorosa ganhasse o mundo para que posições extremadas fossem revistas , embora ainda seja uma pálida atitude diante dos problemas sociais que estamos vivenciando.O pequeno Aylan, o menininho sírio, jogado em uma praia europeia transformou-se em símbolo de uma luta que apenas está começando. PRECONCEITO E XENOFOBIA SÃO CRIMES  CONTRA  A HUMANIDADE. 

Você pode criar textos como : artigo de opinião, editorial, manifesto, carta aberta, dissertação argumentativa ou ainda modelo -ENEM, com intervenção, todos estes gêneros compatíveis com o tema proposto.
O importante é posicionar-se e cercar-se de argumentos sólidos que componham um texto convincente.